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O CAPITÃO, nas palavras dos novos críticos (3/3)

O CAPITÃO, nas palavras dos novos críticos (3/3)

A Leopardo Filmes desafiou professores e jovens estudantes de diferentes áreas e graus de ensino, para assistirem ao filme O CAPITÃO, de Robert Schwentke, discuti-lo, e elaborar um comentário crítico.
Ao longo dos próximos dias revelaremos aqui os resultados desta iniciativa. Hoje pode ler a participação dos seguintes intervenientes:
 
Leonor Oliveira, 9º ano de escolaridade, Escola Secundária da Maia
Tomás Girão Miguel e Francisco Ervões, 11º ano de escolaridade, Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão
Catarina Matias, finalista da especialização de Cinema e Vídeo, do curso de Comunicação Audiovisual da Escola Artística António Arroio
Vasco Muralha, finalista da especialização de Multimédia, do curso de Comunicação Audiovisual da Escola Artística António Arroio
Susana Crespo, 3º ano da Licenciatura em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa
Raquel Ermida, Doutoramento em Estudos Artísticos, Universidade Nova de Lisboa
 
A Leopardo Filmes agradece aos alunos e professores que participaram nesta iniciativa.
 
O CAPITÃO, de Robert Schwentke, continua em exibição nas salas Medeia Monumental (Lisboa), Cinemas Nos Amoreiras (Lisboa), UCI Cinemas - El Corte Inglés (Lisboa), UCI Arrábida (Porto), Cine Teatro S. Pedro (Abrantes).
Está ainda agendado para as salas: Centro de Artes, Figueira da Foz (13/04), Theatro Circo, Braga (16/04) e Cinema Verde Viana, Viana do Castelo (30/04), entre outras.


Susana Crespo
Licenciatura em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa


Na justeza dos planos
Que imagens, que sons poderão ser capazes de “traduzir” as acções monstruosas, as acções ignóbeis, aquelas acções que dizemos inomináveis já conscientes de que qualquer acto de nomeação é apenas uma aproximação, uma ténue aproximação ao mal?

O cinema nas suas tentativas, porque é sempre de tentativas que se trata, de “representar” as acções inomináveis, de “representar” o mal procura as imagens, procura os sons – procura aquela imagem, aquele som – capazes de um preenchimento justo. E como é difícil, senão mesmo impossível, esse preenchimento. Ainda assim, perante a impossibilidade representacional do mal, só resta ao cinema a procura, sempre em modo de tentativa incompleta, representá-lo na justeza dos planos. O cineasta consciente da impraticabilidade de filmar o mal tenta, tenta com a honestidade do seu olhar, um olhar decoroso, encontrar a justeza desses planos.

O filme O Capitão não parece estar nada preocupado com o trabalho representacional cinematográfico do mal. As atrocidades mostradas são em número elevado, a tentar convencer que quantos mais horrores e desumanidades virmos (e ouvirmos), maior será a nossa confirmação da loucura irracional exercida pelas Forças Armadas do Terceiro Reich e em particular pelo falso capitão Willi Herold. Diga-se, a propósito, que a máquina de extermínio nazi era tudo menos irracional, pelo contrário, era de uma metódica e eficiente racionalidade.
Quantas atrocidades precisam de ser mostradas para se formar no espectador a consciência do mal? Segundo Robert Schwentke muitas. Mostrar muitas vezes e mostrar tudo (tome-se como exemplo aquela sequência em que os prisioneiros de um campo de trabalho, executados anteriormente, são enterrados numa vala comum, com as pás a atirarem cal para cima dos cadáveres e aquele plano desprezível de um dos prisioneiros ainda vivo a abrir a boca).

A relação entre o que é dado a ver e aquilo que não é dado a ver e como dessa relação nasce a relação com o espectador de cinema está completamente ausente de O Capitão. A este filme só lhe interessa a avalanche exibicionista visual e sonora do horror.

Não se percebe como é que um desertor, provavelmente farto da guerra, se transforma num executor exímio das atrocidades nazis, que oscilações psicológicas e morais podem ocorrer num soldado raso que por via de uma farda de capitão passa a agir como um capitão/carrasco. Até podíamos estar, mas não estamos, perante um estudo na formulação de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”, aquele mal praticado por indivíduos normais, funcionários zelosos no cumprimento de ordens superiores, sem capacidade de julgar. Mas o que o filme O Capitão parece estar interessado em explorar é antes a banalização do mal.

Escreve Robert Bresson nas suas Notas sobre o Cinematógrafo, “Apaixonado pela justeza”.


Raquel Ermida
Doutoramento em Estudos Artísticos, Universidade Nova de Lisboa


Comecemos por nos situar: Herold desertou. Não sabemos porquê, embora possamos calcular. Estamos em 1945, a duas semanas do final da guerra, que já se antevia perdida para o lado alemão.

Herold dá-nos a impressão de uma natural fragilidade. Como lutar pela sobrevivência quando a caça ao crime contra a pátria é exímia?
Um golpe de sorte: um carro abandonado detém Herold na sua fuga. Uma mala contém o seu agasalho e uma outra identidade. Herold veste-a, limpa o rosto e sobe de patente. De soldado raso a capitão foi um instante. Da deserção à perversão é um passo.

O Capitão é o mais recente trabalho de Robert Schwentke. Um filme cujas imagens a preto e branco mostram a escalada de crueza dos atos de Herold - interpretado por Max Hubacher. Este é um filme que nos deixa desconfortáveis na cadeira. Os comportamentos de Herold e dos sucessivos aliados que a ele se juntam, deixam-nos absolutamente desconcertados. Um grupo de desertores se forma e encena uma missão: conhecer a situação na frente de combate. O acordo é tácito: Herold é o capitão, ainda que as calças lhe fiquem ligeiramente compridas. Mas isso é um detalhe. Herold é um tipo esperto para soldado raso. Há engenho na forma como manipula aqueles que encontra. Quanto tempo mais conseguirá evitar dar prova dos documentos que atestam as suas competências?

A esta história subjaz uma enorme teia de dependências. Perseguidor e desertor voltam a encontrar-se. E ainda que haja quem nunca se esqueça de uma cara, isso aparenta ser apenas mais um detalhe, entre muitos.
A urgência de punição estranhamente se apodera de todos os envolvidos nesta trama. Herold apresenta-se como uma solução de conveniência.
Mas como se sentir perante a conivência com o horror? Quando é que lutar pela sobrevivência justifica um tamanho ato de terror? Horrorizamo-nos com a facilidade com que se puxa do gatilho perante um igual. Quando umas boas dezenas de soldados desertores jazem numa vala comum, é Herold e a sua troupe quem dão o mote para a celebração.

A genialidade deste filme está na perversidade da farsa. No modo como petrificamos perante a forma como os papéis se trocam. Não saberei explicar muito bem como me estaria a sentir. Mas é certo que a posição do espectador é de ambiguidade. Ficamos sem saber como nos posicionar perante um perigoso esquema que se vai montando, na tensa incerteza de que a qualquer momento tudo escapará ao controlo de quem dele faz parte.
Com a vibrante Tritsch Tratsch Polka de Strauss um pequeno twist se dá. A nossa atenção repentinamente desperta perante a irónica impressão de que tudo isto é uma intrigante comédia. A força militar vive agora uma autêntica fanfarra. Sexo, álcool e fuzilamentos encontram-se na mesma linha de conta. Mas não dura.

Herold é apanhado e julgado. Um soldado raso que depois de desertar, ludibriou, enganou e burlou toda a hierarquia de patentes. Um exímio defensor da pátria, mesmo quando já tudo parecia estar perdido. Da deserção à perversão foi um passo e o nosso lugar é mesmo ali no limbo.

 

10-04-2018

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