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PRIMAVERA TARDIA — (Re) Visitação do Cinema Japonês

 PRIMAVERA TARDIA — (Re) Visitação do Cinema Japonês

Da modernidade dos clássicos ao classicismo dos modernos.

Um ciclo de cinema por ocasião do lançamento das caixas DVD de Kenji Mizoguchi (9 de Junho) e Yasujiro Ozu, da estreia de Esplendor, o novo filme de Naomi Kawase (14 de Junho), e da reposição, em cópia digital restaurada, dos filmes Primavera Tardia, de Yasujiro Ozu (28 de Junho) e Contos Cruéis da Juventude, de Nagisa Oshima (5 de Julho).

Caídas as flores
da cerejeira, eis o templo —
através dos ramos.

Yosa Buson [trad. Luísa Freire]

 

A cinematografia japonesa é das mais relevantes na história do cinema, apesar de muitos dos seus filmes se terem perdido (sobretudo do período do cinema mudo). Tardiamente descoberta no Ocidente, chegar-nos-ia, com o espanto e a admiração de quase todos, no início dos anos 50, quando Akira Kurosawa recebeu o Leão de Ouro no festival de Veneza com Rashomon, e logo de seguida com os prémios a Mizoguchi, por A Vida de O’Haru e Contos da Lua Vaga; depois na Inglaterra e EUA, em finais da mesma década, com as primeiras menções a Ozu, que ficou a ser mais conhecido já iam os 1970 bem avançados, quando Tokyo Monogatari/Viagem a Tóquio foi finalmente exibido comercialmente nos Estados Unidos e na Europa — a estreia comercial em Portugal, tal como a de outros filmes de Ozu, só aconteceria há poucos anos, pela mão da Leopardo Filmes (antes apenas estreara, em 1994, Primavera Tardia, distribuído pela Atalanta Filmes, também de Paulo Branco, e que agora veremos de novo, em cópia digital restaurada), começando aí o enorme culto do cineasta. Mizoguchi, realizador de cabeceira da nouvelle vague (Godard chamou-lhe “O melhor dos realizadores japoneses. Ou, simplesmente, um dos melhores realizadores do mundo”), teve a crítica francesa a seus pés, quando em 58 os Cahiers incluíram os Contos na lista dos melhores filmes de todos os tempos. São os três grandes mestres desta cinematografia imensa pela qual, temos, desde então, como escreveu Serge Daney (Maison cinema et le monde), “uma paixão devoradora”.

Mas não foram apenas estes os clássicos “modernos” (e se Mizoguchi era venerado pelos cineastas da nouvelle vague — Rivette escreveria, nos Cahiers, na altura da retrospectiva de Paris, um texto seminal em que falava da modernidade da sua mise-en-scène que era preciso aprender —, já Ozu, como diz Daney, foi uma “fonte de inspiração para os cineastas experimentais” [“e curiosamente o mais ‘familiar’ dos cineastas influenciou a vanguarda mais desenraizada”], e Kurosawa, talvez o mais popular no Ocidente, entre a espectacularidade e a aventura, com uma “mão no passado japonês”, embora com referências heterogéneas, e uma vertente introspectiva, mais íntima, perto da serenidade, sobretudo nas últimas obras (apud Sérgio Dias Branco) era amado por realizadores como Bergman ou Fellini, ou os americanos John Ford, Coppola, Scorsese, ou Spielberg); há, por exemplo, Mikio Naruse, a ser agora (re)descoberto, com uma obra que encena a família e o mundo da mulheres.

Veremos ainda filmes dos expoentes da Nouvelle Vague japonesa, a “Naberu Bagu”, Kôji Wakamatsu, Nagisa Oshima (entre outros, com a estreia, em cópia restaurada, de Contos Cruéis da Juventude, de 1960, retrato de uma juventude desencantada e rebelde, no meio das revoltas estudantis, que viria a alcançar um enorme sucesso entre o público jovem), ou Shoei Imamura. Esta “nova vaga” japonesa, mais do que influenciada pela francesa a que foi buscar o nome, correu a par e de forma completamente independente. Como escreveu Luís Miguel Oliveira (Público), “quando se vê, por exemplo, os primeiros filmes de Nagisa Oshima, rodados à volta de 59/60, chega a ser impressionante a espécie de ‘ar de família’ — e talvez até com algum avanço sobre os franceses, por exemplo no tratamento da cor e do formato ‘scope’.” Era um cinema extremamente subversivo onde o sexo e a violência “eram instrumentos (mais do que apenas ‘ingredientes’)” (LMO, ibid.). E se alguns, como Oshima ou Imamura, viriam também eles a tornar-se “mestres”, Wakamatsu, de quem veremos 7 filmes emblemáticos, e que produziu O Império dos Sentidos, de Oshima, continuou a causar polémica com os seus últimos filmes, ambos apresentadas no Festival de Berlim, O Bom Soldado (2010; Urso de Prata Melhor Actriz)) e Exército Vermelho Unido (2007), que vieram em muito contribuir para a redescoberta do seu “cinema da revolta”.

É a todas estas tradições que os novos realizadores nipónicos vão beber para as suas obras.

Takeshi Kitano, cineasta e actor, afirma-se nos anos 90, com um cinema simultaneamente “brutal e cândido” (Vasco Câmara, Público), entre as histórias de gangsters (yakuzas) e uma espécie de vaudeville burlesco (por exemplo, em O Verão de Kikijiro, onde alguns viram influências de Buster Keaton, Kitano declara-se profundamente japonês), ao melodrama de Hana-Bi / Fogo-de- Artifício (Leão de Ouro de Veneza em 1997), ou ao “filme de fantasmas”, Dolls.

“Cineasta de aparições e fantasmagorias”, Kiyoshi Kurosawa, de quem acabámos de estrear O Segredo da Câmara Escura, “uma história de amor assombrada pelo espírito da fotografia oitocentista de Louis Daguerre” (Luís Mendonça, À Pala de Walsh), que o cineasta veio filmar em França, é, hoje um dos mais brilhantes cineastas do terror. “Um terror materialista, quase primitivo, que aspira a um eterismo enigmático (…) que se baseia num dispositivo extremamente rudimentar de efeitos para produzir a sua muito concreta dimensão ‘fantástica’. Os espectros são como gente, confundem-se connosco, porque andam, falam e… beijam como nós.” (LM, ibid.) Vamos também ver Rumo à Outra Margem (Cannes 2015, Prémio Melhor Realização da Secção Un Certain Regard), filme de fantasmas (Ysuke é um fantasma de uma “beleza solar”, vestido com as suas roupas, que fala, caminha, senta-se, come, suspira, abraça a mulher), filme que ruma às origens do cinema, esse “reino das sombras”.

Hirokazu Koreeda (que acaba de vencer a Palma de Ouro em Cannes), e que começou por ser documentarista, mas viria a afirmar-se na primeira década deste século com o filme Ninguém Sabe (2004, Prémio Melhor Actor em Cannes), é, podemos dizê-lo, um dos contemporâneos que tem vindo a afirmar-se como um dos mais evidentes herdeiros do cinema clássico japonês, sobretudo o de Ozu e Naruse, mas também o de Mizoguchi e Kurosawa.

Também Naomi Kawase, outra das cineastas nipónicas com presença habitual nos grandes festivais de cinema, a partir da segunda década deste século, começou no documentário, tendo depois passado à ficção, onde cruza, com uma sensibilidade poética única, o mais profundo da “alma japonesa” com o Japão contemporâneo. Estrearemos o seu novo filme Esplendor (Cannes 2017, Prémio do Júri Ecuménico), filme luminoso e delicado sobre uma jovem que escreve versões de filmes para invisuais e um fotógrafo mais velho que aos poucos está a perder a visão. São as fotografias deste que os aproximarão de forma muito particular.

Uma mostra onde veremos filmes de samurais, filmes de yakuzas, filmes de aventuras, filmes eróticos, filmes de família, filmes de fantasmas… Voltando a Daney (também no próximo parágrafo): “Belo percurso”, este.

“Uma pessoa não se torna especialista do cinema japonês, ama-se o Japão, body and soul.

Yôkoso



21-05-2018

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