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Fomos ao cinema com o poeta Ricardo Marques

Fomos ao cinema com o poeta Ricardo Marques

EQUINÓCIO DE OUTONO ou 'O meu pai tinha razão'
(este texto não contém spoilers)

Quando, há alguns anos, visitei com o meu pai uma exposição antológica sobre a obra de Almada Negreiros, deparámo-nos com um cartaz com a famosa frase: "A alegria é a coisa mais séria do mundo". Para o meu pai foi amor à primeira vista, e sempre que nos encontrámos desde então lembrámos essa frase, no mínimo, icónica.

Nem sempre, porém, a vida é alegre, meu caro Almada. Mas a suprema ironia (já nem falo da brincadeira linguística com contrários) desta boutade estava no facto de assentar que nem luva naquele homem a quem nem sempre a vida sorrira, mas que apreciava uma boa piada. Apesar de tudo, era isso que ele me queria dizer, no seu equinócio de outono, agora que tudo esfriava e o coração parecia querer parar. Creio então que ele iria apreciar este filme naquilo que tem de tratado sobre a vida, e lendo mais acerca da sua realização, creio que essa relação autobiográfica com o próprio pai de Sacha Guitry se pode estabelecer. Mas não vim aqui falar de semelhanças, nem quero convencer ninguém da veracidade destes factos que só a mim dizem respeito.

Sobre coisas verdadeiras, aliás, só posso falar deste filme. Como em quatro ou cinco quadros (leia-se actos), dispostos teatralmente no curto espaço de 80 minutos, se consegue falar de tudo o que diz respeito às relações humanas, só Sacha Guitry poderia saber. Se não fosse filme, talvez pudesse ser um tratado filosófico, lembrando as dialécticas clássicas, onde todos os conceitos, que de tão abstractos se tornam concretos, são problematizados com diálogos entre duas ou mais personagens. E o que elas dizem é simples: Como dardejar a honra, o orgulho, a traição, a fidelidade, como tratá-las na sua natureza poliédrica através de personagens-tipo, encimadas pela relação entre o pai e um filho, que se vêem subitamente sozinhos no mundo? Como não amar a bonomia de quem nos diz, malgré o que lhe fez a vida, que a única verdade é a alegria?

Outra questão é a velocidade - antecipando outro slapstick de riso socrático dos anos 30, 'Bringing up Baby' (reparo agora como este título poderia ser o do filme de Guitry), as personagens falam em tiradas estonteantes, como se já soubessem as suas linhas de cor, e as tivessem ensaiado previamente. E os trejeitos exagerados, ou o tom exasperado? Perdoa-se a inverosimilhança e podemos continuar a falar de verdade. No fundo, quantos de nós não encaixamos naquelas falas tão democráticas? Quantos de nós já não dissemos aquela determinada frase, ou não quisemos convencer alguém da nossa verdade? Na vida talvez não interesse tanto se ensaiamos muito o papel se o que dizemos concorda connosco (geralmente discordando dos demais). E isto só se aprende vivendo - ou vendo o filme de Guitry, ou tendo um bom pai como eu.

Agora que o sol começa a sua maravilhosa descida do zénite do solstício e apesar de os 35 de hoje já não serem os mesmos de 1936, compreendo o que dizia Guitry e o meu pai, primos afastados todos estes anos: não vale a pena desesperar muito, não vale a pena toda a tristeza, 'é melhor ser alegre que ser triste', diz a modinha de vinicius, porque 'a alegria é a coisa mais séria do mundo' e, como o meu pai dizia, 'Não saímos aos pés dos sobreiros'. Um dia não muito perto, talvez um pouco longe, serei como ele: O meu pai tinha razão.

Ricardo Marques

Nota biográfica:
Ricardo Marques (n.1983) é investigador pós-doutoral na FCSH-UNL. Poeta e tradutor de poesia, organizou as antologias poéticas de Tennessee Williams, Billy Collins, Vicente Huidobro, Patti Smith, D.H. Lawrence, Derek Jarman, entre outros. Prepara uma tradução alargada de poesia futurista, a sair em breve.

 

12-09-2018

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