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Serguei Dovlatov, a propósito da estreia de DOVLATOV.

Serguei Dovlatov, a propósito da estreia de DOVLATOV.

Serguei Dovlatov, escritor que nasceu em 1941 na União Soviética e faleceu em 1990 em Nova Iorque, é um autor ainda praticamente desconhecido entre nós. Em língua portuguesa, é mais conhecido no Brasil, onde vários dos seus títulos já foram publicados desde 2008.

Em Portugal, O Ofício (Antígona, Lisboa, 2018) é o seu primeiro livro editado, na bela tradução de Galina Mitrohovitch. A este, segundo esperamos, deverão seguir-se a tradução e edição de outros títulos seus.

Porque Serguei Dovlatov é uma figura muito importante da literatura russa contemporânea. É um autor, segundo alguns dos seus estudiosos, que contribuiu grandemente para libertar a língua russa dos atavismos estalinistas que a moldaram durante décadas.

As circunstâncias de Dovlatov situam-se sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, na URSS, no contexto que ficou conhecido como o da estagnação do sistema soviético. Tais circunstâncias caracterizam primacialmente toda a obra de Dovlatov. E poderá ser instrutivo vermos porquê.

Antes de mais, porque não conseguiu publicar nenhum dos seus livros no seu país, apesar dos esforços que fez nesse sentido. Esforços normais, convém sublinhar, porque nunca aceitou entrar em cedências ou compromissos de que decorressem adaptações dos seus escritos às condições censórias e à imperante mentalidade que tais condições impunham. A ética pessoal de que nunca se desfez é uma das características relevantes deste autor, ainda mais relevante se tivermos presente que a perspectiva de emigrar estava fora dos seus planos. Significando isto que não trocava as suas exigências artísticas e morais pela possibilidade de ser editado, caso se conformasse aos cânones censórios adaptativos.

Destacaria pois nesta sucinta nota a respeito de Dovlatov e do livro O Ofício, três ou quatro aspectos que me parecem fundamentais.
– A sua individualidade, a assunção da sua própria pessoa numa sociedade massificada.
– O seu particular realismo como matéria narrativa, matéria esta que não é de índole prosaica.
– A inspiração profunda da sua ironia, a espantosa comicidade do seu humor.
– A sua relação visceral com a língua e a cultura russas, em particular com a literatura, com o húmus próprio desta língua.

A sua assunção como indivíduo – sem que isto remeta para uma noção estreita de individualismo –, no contexto duma sociedade massificada, era à partida pouco ou nada aceitável. Sobretudo porque toda a obra de Dovlatov está profundamente marcada pelo autobiografismo, sendo esta uma das suas notórias peculiaridades. O principal protagonista da sua ficção é ele próprio, presente e transfigurado. Mas isto não resulta de uma qualquer exacerbação narcísica, resulta, isso sim, da sua muito responsável visão do mundo, em particular da sua visão do mundo imediato, palpável nas suas rugosidades, estreitezas e grandezas, desse mundo que Dovlatov não podia nem queria deixar de ver e que atravessava a sua própria pessoa.

A sua muito forte vocação de escritor tornou-se manifesta na sua primeira experiência profunda de trabalho narrativo, na novela A Zona, escrita aos vinte e poucos anos, directamente inspirada no seu tempo de serviço no exército, numa colónia penal da República de Komi, remota região da URSS, por ter sido expulso da Universidade de Leninegrado por mau aproveitamento escolar.

O modo como Dovlatov capta o processo narrativo pode talvez ser comparado ao que John Berger declarou a respeito da sua própria inspiração: mais do que inventar, trata-se, para o narrador, de ouvir, de saber ouvir, de ir ao encontro das vozes que o chamam. Dovlatov tem em elevado grau a capacidade de ouvir, bem como a de ver, e de se ver a si mesmo, criticamente, no contexto de onde as suas narrativas irrompem, não se colocando fora delas.

É por isso que se revela tão estimulante a biografia deste extraordinário escritor, que o filme que vamos ver nos apresenta de modo ficcional, certamente, mas com a verosimilhança que Dovlatov tinha como expressão necessária do modo expositivo.

Como disse, Dovlatov não planeava emigrar, apesar de se ver, na URSS, como pessoa e como autor, num beco sem saída. Emigrou para Nova Iorque muito instigado pela sua ex-mulher e pela filha, então adolescente, que saíram de Leninegrado antes dele.

E embora o decisivo peso da censura na União Soviética, que tornou impossível ali a publicação de todos os seus livros até à queda do regime, estivesse presentíssimo, a sua experiência de emigrado nos Estados Unidos, graças à qual pôde finalmente começar a ver publicados os seus textos de forma regular, não o impediu de constatar que a América (ou seja, os Estados Unidos) não era nenhum paraíso. A sua lucidez nunca o abandonou, como se pode ver na segunda parte do livro O Ofício, cuja trama já decorre em Nova Iorque, nos círculos de emigrados russos.

A sua morte prematura, aos 48 anos, não permitiu que levasse mais longe a sua experiência existencial da chamada «maior democracia do mundo». Mas a visão e a verve que aplicou às suas vivências numa ditadura clássica ter-se-iam certamente estendido àquilo que são – na esteira do chamado «socialismo realmente existente» – as «democracias realmente existentes».

Após o seu falecimento em 1990 e na sequência do desmoronamento do império soviético, a sua obra passou a ter na Rússia uma grande difusão, e desde então Dovlatov tornou-se um dos mais admirados e acarinhados autores de língua russa. Contra todas as impossibilidades, e graças à impressionante coerência do autor, esta obra vingou, fazendo vingar a sua memória.

Peço desculpa, mas já me esquecia de referir no elenco ficcional de Dovlatov uma personagem importante e a bem dizer omnipresente, uma personagem hilariante e picaresca cujo nome genérico é álcool e que, no caso vertente, se declina mais comummente como vodca. Permitam-me pois que termine fazendo uma saúde e erguendo um copo ao génio de Serguei Donatovich Dovlatov.

Júlio Henriques

Sucinta apresentação de Serguei Dovlatov, a propósito da publicação do seu primeiro livro em Portugal e por ocasião da projecção do filme Dovlatov, de Aleksey German Jr., no 12º LEFFEST (Lisboa, 17 de Novembro de 2018)

10-12-2018

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