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Em produção

A Criança L'Enfant

Um filme de Marguerite de Hillerin, Félix Dutilloy-Liegeois com João Arrais, Grégory Gadebois, Maria João Pinho, Loic Corbery

Em meados do século XVI, na província de Lisboa, Bela, um jovem adoptado, tenta encontrar o seu lugar no seio de uma família livre, embora sufocada por uma sociedade em mudança. A partir daí, tudo levará a uma tragédia.

2020 | Portugal, França | Filme e mini-série 3 episódios | Rodagem: Julho e Agosto 2020 (Portugal)

Actores e ficha técnica

João Arrais
Grégory Gadebois
Maria João Pinho
Loic Corbery
Inês Pires Tavares
Alba Baptista
Albano Jerónimo

(filmografia dos actores)


Argumento e realização: Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liegeois

Livremente adaptado a partir de Der Findling (trad. O Orfão) de Heinrich von Kleist

Direcção de fotografia: Mário Barroso

Direcção de arte: Zé Branco

Guarda-roupa: Lucha D’Orey

Assistente de realização: Raquel Teixeira

Som: Francisco Veloso e David Badalo

Chefe de produção: Catarina Alves

Produtor: Paulo Branco


Uma produção Leopardo Filmes (PT)

Em co-produção com Alfama Films Production (FR)

Com o apoio financeiro

Instituto do Cinema e do Audiovisual

Rádio e Televisão de Portugal


Vendas internacionais e festivais: Alfama Films

Biografia do realizador

Marguerite de Hillerin:


Marguerite de Hillerin nasceu em Levallois no ano de 1995. Interessa-se inicialmente pelo teatro que vai estudar para Paris durante quatro anos. É aí que aprende representação, mas também encenação, e a importância da voz e da palavra.


Depois de um bacharelato em ciências, o seu amor pelas Letras leva-a de volta à universidade onde tira uma especialização em teatro. Obtém uma dupla licenciatura em Literatura Moderna e História antes de integrar o Institut de Sciences Politiques de Paris. Em paralelo, redige uma tese sobre o trabalho de Jean Vilar, sob orientação de Marco Consolini na Sorbonne Nouvelle.


Algumas das suas referências literárias são Foucault, Weil, Arendt, Agamben, Blanchot e Bourdieu. Tem também desenvolvido trabalho de produção e administrativo no Festin, a companhia nacional de teatro.


A sua ligação ao cinema começa na rodagem de Sommeil de la terre, de Félix Dutilloy-Liégeois onde interpreta um dos papéis. Desde então, os dois nunca mais pararam de trocar ideias e desenvolver novos projectos. Lança-se na realização ao lado de Félix Dutilloy-Liégeois com Au Mont, uma colaboração natural, feliz e evidente Marguerite de Hillerin colabora na escrita de um romance de Félix Dutilloy-Liégeois e juntos estão a escrever o argumento para dois filmes sobre o desemprego, numa vontade de transformar em imagem a violência das palavras e a sua perda de sentido no mundo do trabalho.


Félix Dutilloy-Liegeois:


Félix Dutilloy-Liégeois nasceu em Paris em 1995. Começou a escrever aos dezesseis anos. Poemas primeiro, porque cabiam no bolso; o gosto das imagens vem daí. Filmes depois, porque eles oferecem às palavras uma nova forma de existir. As suas primeiras experiências em vídeo-art ajudaram-no a encontrar a sua voz e afirmar os seus interesses, pelos grandes espaços, pelos homens que se desviam, pelo estado de natureza que nunca alcançaremos.


Estudou Literatura Moderna na Universidade, antes de entrar em Ciências Sociais na École des Hautes Études, onde escreve uma tese sobre o meio rural. Lá, é orientado, com louvor, pelo cineasta Stéphane Breton.


Sous les yeux de Vulcain, Le Sommeil de la terre, Puisqu’il y a le Soleil, Portrait e também Pays são as suas primeiras incursões no élan do cinema.

Mais tarde continuou a desenvolver os seus estudos na École Nationale Supérieure de la CinéFabrique em Lyon, onde desenvolveu os seus conhecimentos técnicos ao lado de Pierre Schroeder, Arnaud des Pallières, Patricia Mazuy ou Régis Sauder.


Na primavera de 2018, escreve e realiza com Marguerite de Hillerin Au Mont. Para estes dois jovens realizadores, esta foi uma primeira oportunidade para trabalhar com uma equipa de cinema e a confirmação de uma vontade de continuar a filmar juntos.


Desde Au Mont, começaram a desenvolver um romance, para além de dois projectos de ficção kafkiana ligados ao tema dos despedimentos.

Nota de intenções

Ambos tínhamos lido Kleist mas nunca havíamos falado do assunto. Lemos o seu teatro e as suas novelas, frequentemente muito curtas, incisivas, violentas como espelhos estilhaçados. Textos que tratam de sociedades burguesas e morais, das guilhotinas que apertam em torno dos pescoços livres e das almas errantes; estas sociedades desenvolvidas no terreno fértil da opressão, da dominação pelos poderosos que a religião abraça com amizade. Até ao seu suicídio, gesto último e absoluto para ser, Kleist alimentou uma fogueira. Ele antecipou os românticos e chamou a alguns séculos de distância os modernos. Ele exumou a graça submergida no lodaçal do seu tempo, maravilhou-se com as relações luminosas que podem existir entre os homens, pois há relações brilhantes, puras na sua porosidade, simultaneamente grandiosas e viciosas. E ainda que as suas histórias acabem sempre mal, Kleist não é um pessimista. A sua obra é um esforço constante para encontrar as falhas por onde passam os raios de sol.


Quando o Paulo Branco nos propôs escrever uma história, um de nós pensou subitamente no A Criança Encontrada, conto conciso do autor alemão. O rosto do outro iluminou-se. A nossa paixão pelo texto era partilhada. O que é que ele conta? A história de um rapaz cuja essência é atormentada por não conseguir existir singularmente. Quando nos debruçámos sobre o texto, o nosso interesse cresceu ainda mais: na sua relação com o desaparecimento, com aquilo que é visível e o que não é, o extraordinário, a ilusão, o conto está repleto de ideias de cinema. Há outras coisas que nos tocam: as aberturas e os mistérios precipitados, a urgência que se sente na própria escrita, as crateras formadas pela catástrofe que é narrada. Kleist parece ter escrito o seu texto para que anos mais tarde outros se apropriassem dele e o enriquecessem, para que encontrassem os lugares que ele não teve tempo de visitar tal era a urgência de fazer existir a criança da história.


Na adaptação livre do conto, seguimos os caminhos já traçados e damos-lhes continuidade noutros lugares. Nicolo, a criança encontrada de Kleist torna-se Bela. A Itália do Renascimento torna-se Portugal no século XVI, um mundo em que os limites rebentam, em que a ambição dos homens os ultrapassa, em que a sede de descoberta os leva para longe. Neste tempo, ser soberano de Portugal equivale a ser o «Senhor da conquista, da navega-ção e do comércio da Etiópia, da Arábia, da Pérsia e da Índia».


Lisboa é magnética. Portugal é excesso. Todas as famílias nobres possuem escravos vindos da Guiné, de Moçambique, da Costa do Marfim, de Marrocos. Ao mesmo tempo, a Companhia de Jesus penetra no reino. Os Jesuítas tornam-se conselheiros, confessores e professores nas mais altas esferas da sociedade. Eles serão o braço direito de uma Inquisição comprada ao papado. Mas a glória visível já não passa de uma falsa aparência. Em 1554, data na qual tem lugar a nossa história, o império marítimo está à beira do declínio, as figuras do poder endurecem-se.


Bela aparece a Pierre uma noite num albergue perto do porto. O rapaz narra relatos de viagens imaginárias, descreve um fausto que nunca conheceu. Ele é o símbolo das ilusões que se vão perdendo. O auditório contempla-o e Pierre vê nele o filho que perdeu. O cerne do nosso filme é definido por esta cena inicial. Como é que o fascínio será invertido? Como é que Bela vai perder o seu poder? Bela tenta ser. Esta busca culmina e fracassa simultaneamente quando Bela pensa que descobre o seu próprio encanto no retrato de outro, esse outro que se parece com ele. Imagem enganadora. É quando acredita que se descobre que Bela se perde. Soberano sem querer, Bela está inserido num mundo cujos caminhos já estão traçados.


Qual é o preço desta soberania?


A inexorável perda da sua liberdade. A queda do rapaz é o triste resultado de todas as esperanças postas nele à força, os desejos que sufocam. Pouco a pouco, o mundo que ele carrega à custa de uma aura ingénua desmorona-se. Então, cada um dos personagens que o rodeiam desprende-se até desa-parecer. Nós gostamos do cinema que conta histórias. E gostamos do cinema que toma o seu tem-po para as contar. Bresson, Serra, Rohmer, Ruiz ou Chéreau são cineastas que nos permitimos admirar. Nesta corrida para a catástrofe que é A Criança, determinámos lugares serenos que não existem em Kleist. Este esforço para criar um contraste, é o que fazemos constantemente nas nossas trocas um com o outro. Cada uma das nossas decisões é fruto de um diálogo contínuo em que as nossas qualidades e sensibilidades respetivas se misturam.


O nosso desejo de realizar A Criança é imenso.

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