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Brevemente nos cinemas

Aprender Apprendre

Um filme de Claire Simon

O novo filme de Claire Simon leva-nos para uma escola primária pública nos arredores de Paris. Entre o recreio e as salas de aula, observamos as interacções diárias entre professores e alunos e os seus pequenos dramas e triunfos. Numa homenagem a uma das mais nobres profissões, posta em causa pelo sub-financiamento do sistema educativo francês, a documentarista mostra como os professores, mais do que ensinar, educam estas crianças. Sem interferir, mas de forma empática e gentil, Aprender dá-nos a ver a vida no seu estado mais cru e real.

2024 | França | M/12 | 1h45 | Documentário | Longa-metragem

Festivais e prémios

Festival de Cannes 2024 – Nomeação para o L’Oeil d’Or

Festival de Gijón 2024 – Nomeação para Melhor Filme

Crítica

«Claire Simon procura, sobretudo, tornar sensível uma porosidade e tensão entre o universo escolar e o mundo, onde o desejo de transmitir conhecimento contrasta com a situação vivida por alunos dos subúrbios.»

Cahiers du Cinéma (Romain Lefebvre)

«Dedicada a procurar o humano em vez dos conflitos nos seus retratos das instituições, Claire Simon encontra-o, decididamente, e parece oferecer-no-lo como um presente.»

Libération (Sandra Onana)

«Claire Simon capta um milagre: aquele que acontece nas crianças quando o professor as eleva.»

Transfuge (Mathieu Guetta)

«Num momento em que a Educação [francesa] emite sobretudo sinais de sofrimento, Aprender transmite uma preciosa mensagem de esperança.»

Télérama (Frédéric Strauss)

«Uma homenagem alegre, positiva e lúcida à mais nobre das profissões e à escola pública, mais indispensável do que nunca.»

L’Obs (Xavier Leherpeur)

Actores e ficha técnica

Direcção de Fotografia: Claire Simon

Montagem: Luc Forveille
Produção: Michel Klein
Distribuição: Leopardo Filmes

Entrevista com a realizadora

Há este título, ao mesmo tempo simples e complexo: Aprender.

Claire Simon: Nele coloco um duplo sentido: o aprender enquanto se é criança, e o adulto que ensina às crianças. Aliás, apercebi-me de que esse duplo sentido não se traduz em inglês – talvez não se traduza em nenhuma outra língua.


Como chegou a essa escola Makarenko, em Ivry-sur-Seine?

CS: Procurei várias escolas, chegou a haver uma muito interessante em Montrouge, com uma directora maravilhosa, que conhecia bem o cinema. Fui lá várias vezes, mas procurava uma maior diversidade. Fiz prospecções também em Paris, porque há recreios novos menos marcados por género, onde o futebol já não ocupa todo o espaço, etc. Nesses repérages pelas escolas parisienses via também crianças muito sensibilizadas com a questão do clima. Guardei uma óptima recordação de Ivry aquando da rodagem do meu filme Premières solitudes. O liceu onde filmei apresentava uma grande diversidade, mas de forma serena, muito simpática e acolhedora. Informei-me junto de um amigo que vive em Ivry, e depois dirigi-me à câmara municipal. Não foi preciso visitar todas as escolas porque tive um verdadeiro golpe de coração assim que descobri a Makarenko. Como, inicialmente, a minha intenção era filmar apenas o recreio, agradava-me muito a sua amplitude. Depois, o encontro com o Bertrand Quinet, esse formidável director, acabou por me convencer por completo. Em geral, nos subúrbios filma-se “os delinquentes”, os adolescentes violentos, enquanto eu queria mostrar a escola primária como um bastião republicano, como uma fábrica do cidadão e da cidade. A escola primária é um lugar de aprendizagem — ler, escrever e contar — mas também um espaço onde se confronta o mundo dos adultos. É o oposto daquela imagem cor-de-rosa da escola primária, que transmite outros valores mais tradicionais.


Esta imersão na infância remete-nos inevitavelmente para Récréations (1992), mesmo que Apprendre se afaste bastante.

A grande diferença em relação a Récréations, desde o início, foi que eu queria interessar-me não apenas pelas crianças, mas também pela relação delas com os adultos. Claro que não se pode reencontrar a invenção pura e a poesia das crianças do jardim-de-infância que consegui captar em Récréations. O ensino primário induz conformidades, começamos a definir-nos em relação aos outros, aos olhares à nossa volta. Outra diferença é que eu estava sozinha em Récréations, aqui éramos dois, com o Pierre Bompy no som. Ele percebeu muito bem a forma como eu filmo, ou seja, sem cortar de um plano para o outro, ele seguia, também muito próximo das cenas. Assim, ouvia muito claramente aquilo que filmava — foi magnífico. É nestas condições que se apreende o que as crianças pensam, o que sentem. Depois de duas semanas de rodagem, vi os alunos a escolher os seus livros na biblioteca com o professor Mohammed. Perguntei-lhe se seria possível ir à sala dele, e ele aceitou facilmente. Foi assim que descobri o quarto de hora de leitura, e isso comoveu-me profundamente: filmar crianças a ler pareceu-me algo muito belo – a concentração delas, os lábios que se mexem, os olhos que seguem as linhas… O professor Mohammed dizia-me que, para alguns, é o único momento de leitura que têm.
Durante essa aula, percebi que a sala de aula, as aulas, podiam ser filmadas – algo de que não estava necessariamente convencida: há emoções, histórias, desafios, dramaturgia. Em suma, há cinema. Apercebi-me também de que todas as crianças queriam fazer bem, ter sucesso. E, claro, da exigência que transparece do ensino, e da vontade de não deixar ninguém para trás. Notei também um amor por parte dos alunos em relação à figura do professor, e esse amor é recíproco. É também o lugar onde se acredita na capacidade das crianças para aprender; tornam-se as coisas possíveis mesmo para as crianças para quem é difícil, como a Élisa, essa menina muito aflita com a escrita. Essa relação com os professores constitui, evidentemente, a chave para que as crianças aprendam, mas também para que se tornem cidadãos. Os professores não são aqueles que sabem tudo, mas encarnam uma figura majestosa que abre a porta entre o mundo e as crianças, e lhes dá as chaves da linguagem para o compreender e para se fazerem ouvir.
Depois de ter observado esse aspecto, falei com o director e disse-lhe que ia mudar de abordagem e que queria filmar também dentro das salas de aula. Não foi simples com todos os professores. Para os convencer, montei os rushes das três primeiras semanas de rodagem, para lhes provar que o meu projecto não era o de um canal de informação ou de um documentário jornalístico. Os professores cuja aula eu já tinha filmado deram o seu acordo para que eu continuasse, desde que os pais tivessem dado autorização; apenas uma professora manteve uma posição de recusa e convenceu outros colegas. Mas já tinha bastante trabalho com cinco turmas…


Fala-se muitas vezes, sem se definir verdadeiramente, de “filme à altura de criança”… O que será isso?

Primeira coisa fundamental: gosto mesmo de crianças. E de as filmar. Os sentimentos delas são tão transparentes, a convicção com que vivem as coisas tem algo de radiante. Esta questão do “à altura de criança” é também uma questão técnica: usávamos uma câmara do tamanho de uma máquina fotográfica. Com esse material, é possível filmar literalmente à altura, segurando a câmara com o braço estendido, junto à cintura. Acho que a cena de abertura, em que o Amadou é recebido pelo director, é muito ilustrativa — é feita do ponto de vista dele. Integrámo-nos muito rapidamente nas turmas, circulávamos nas salas com o engenheiro de som com bastante liberdade, há alguns olhares para a câmara, sim, mas as crianças não se importavam, porque estavam absorvidas pela exigência do ensino — isso era mais importante para elas. Fiquei feliz por conseguir estar próxima delas como se estivesse mesmo na aula ao lado delas, com a mesma ignorância sobre o que ia acontecer a seguir. Como se vê na sequência do jogo de damas, elas estão completamente concentradas no que estão a fazer. Se não nos colocarmos a essa altura, não conseguimos perceber o que as atravessa, o que as ocupa. De forma mais simples, a chave para filmar à altura de criança é reencontrar a nossa própria infância. E eu reencontrava memórias de mim enquanto aluna, algo que gostei muito de ser, na minha aldeia no Var.


No seu conjunto, o relato, a partir desta questão da aprendizagem, transmite a impressão de uma travessia do social, das questões societais, das posições no campo social.

Mesmo considerando que este é o meu primeiro filme fora de qualquer estrutura narrativa prévia, não podia ser de outra forma — estamos no cerne do social e da sua construção. Trata-se do lugar onde as crianças compreendem que têm um lugar tanto individual como colectivo; têm uma noção muito forte do que é um grupo, logo, do que é a sociedade. Na montagem, começámos por tentar contar primeiro a aprendizagem: o cálculo, a leitura, depois o recreio, a questão da regra com aquele aluno repreendido, e assim por diante. Esse é o primeiro movimento, depois vem a relação com a cidade, no sentido da polis, com o carnaval que desfila fora dos muros da escola, com o orgulho dos pais, a beleza dessas máscaras. Impulsionámos uma lógica de alargamento do enquadramento, da relação com o mundo, com os alunos da escola alsaciana que vêm, de Paris, depois a viagem a Paris num bateau mouche. O que liga tudo é que a escola é verdadeiramente o cadinho da cidade, os professores e o director são civilizadores! Para caricaturar, eu vinha filmar o recreio e, portanto, brigas. Mas quando cheguei, o director disse-me: “Azar o teu, reduzimos a violência no recreio em 80% graças à mediação.” Há nesta escola uma insistência formidável sobre a palavra, as virtudes da linguagem, a expressão verbal das cóleras, das frustrações. O que faz com que as próprias crianças se tenham tornado mediadoras. Emerge algo de extremamente colectivo, as crianças estão sempre ligadas umas às outras, sempre convidadas a incluir o outro, a discutir entre si o que pensam, a trazer nuance. É, evidentemente, um baluarte contra a violência. Por outro lado, quando a professora de educação física Morgane dá aquela aula de luta, entra-se numa dimensão mais competitiva, física, e também simbólica quando se confrontam raparigas e rapazes. A luta de género torna-se um desporto, ganha uma técnica e desdramatiza-se. Escolhemos filmar quando as relações entre as crianças, e com os professores, já estão bem estabelecidas, mais para o 3.º trimestre e depois com o novo ano lectivo. É por isso que o filme é bastante solar.


Pode falar-nos desta visita da escola alsaciana?


A parceria existe há já bastante tempo entre as duas escolas. A cena evidencia de forma muito violenta o hiato social, através dos nomes próprios, da forma de se apresentarem, dos usos e dos códigos culturais. Obviamente, é importante que esse encontro aconteça, descobrir essa música, esses instrumentos. Mas é também desequilibrado e esmagador, há ali algo de humilhante, isso atinge-os.


Parte de boas intenções, mas é de facto um momento violento, pede-se-lhes que se calem e escutem uma cultura legítima. Nesse contexto, o canto final soa como uma vingança.

É violento, mas é muito importante que essa violência não seja escondida. As crianças sabem disso, estão a aprender. Não ouvem Schubert ou Chopin em casa, há uma cultura de classe... Mas vê-se o quanto, com Diamonds da Rihanna, têm talento para cantar – é por isso que é comovente. Por exemplo, o bloqueio do Mohammed com o nome próprio «Picasso» parece-me da mesma ordem, trata-se de um outro mundo bastante inquietante por ser dominante. Mas se se ouve falar dele na escola, pode-se apropriar dele.


Na cena de abertura, vemos um menino a dar a mão ao diretor: pode-se ver aí um símbolo no gesto de dar a mão e no de tomar esse menino pela mão: o da República que estende a mão. O filme está cheio de confiança, na instituição e mais ainda nesses adultos que a encarnam.

É por isso que fiz este filme, pelo contraponto que ele oferece. O cinema pode ser esse lugar, em todo o caso não se trata de comunicação. Os professores da escola que viram o filme disseram-me que é um retrato fiel da escola. Mostrar esse acolhimento por parte da escola é realmente fundamental; fiquei deslumbrada com a atenção, a pertinência dos professores, que oferecem um enquadramento aberto à singularidade, aos ritmos de aprendizagem extremamente diversos. É preciso ter consciência da paciência, da exigência que isso supõe da parte deles, da capacidade de adaptação entre os que percebem tudo e os que precisam de andar de trotinete de hora a hora.


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