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Brevemente nos cinemas

Campo de Sangue Campo de Sangue

Um filme de João Mário Grilo com Carloto Cotta, Luísa Cruz, Sara Carinhas, Teresa Madruga, Fernanda Neves

A personagem de um romance escrito no passado ganha vida no presente para atormentar a autora, revivendo e revisitando com ela a história de um Crime.

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Lisboa - Medeia Cinema Nimas

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Coimbra - Medeia Teatro Académico de Gil Vicente

18:00
2021 | Portugal | M/16 | Drama, thriler | Longa-metragem

Crítica

«Um dos filmes mais admiráveis que o cinema português gerou nos últimos anos.»

João Lopes, Diário de Notícias

«Um homem deambula através de um labirinto feminino: um belo exercício de cinema.»

João Mário Grilo entrevistado por João Lopes, Diário de Notícias

Actores e ficha técnica

Com

Carloto Cotta

Luísa Cruz

Sara Carinhas

Teresa Madruga

Fernanda Neves

Suzana Borges

Júlia Palha

Mafalda Marafusta

Alba Baptista

Lana Dumitru

Henrique Gomes

Heitor Lourenço

Miguel Monteiro

A participação especial de Adriano Luz

E as vozes de Luís Lucas e Rui Morisson


Uma fantasia inspirada no romance de Dulce Maria Cardoso

Argumento: Luís Mário Lopes, João Mário Grilo e Inês Beleza Barreiros

Imagem: João Ribeiro

Direcção de arte: Silvia Grabowski 

Decoração: Lucha D’Orey

Caracterização: Ana Lorena

Assistente de realização: Emídio Miguel

Som: Francisco Veloso e Pedro Góis

Música original: Mário Laginha 

Montagem: Roberto Perpignani

Produzido por Ana Pinhão Moura


Uma produção APM Produções 

com o apoio financeiro de ICA, Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema, RTP, Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa Film Commission, CMTV, Fundação GDA e GEDIPE 


Distribuição: Leopardo Filmes

Nota de intenções

O LABIRINTO DE “CAMPO DE SANGUE” (RECORDATÓRIO DE UM PROCESSO)


Quando o Luís Mário Lopes me desafiou a pensar no seu projecto de adaptação do romance Campo de Sangue, da Dulce Maria Cardoso, estava longe de imaginar a vertigem em que iria cair. O argumento, que não era bem uma adaptação (chamei-lhe “fantasia”), tinha, no seu centro, uma ideia genial – a aparição do protagonista do romance (ELE) à escritora (DULCE) – e uma chave de leitura “geométrica”, que vai muito bem com o cinema que gosto de ver e que sou capaz de fazer. Para além disso, havia já um feliz encontro precedente com a literatura da Dulce: a curta-metragem, também adaptada pelo Luís, a partir do conto Não Esquecerás e que seria produzida em 2017 (esperando eu que estes filmes possam ser mostrados, agora, em conjunto).


Gosto muito da Dulce Maria Cardoso, cujos livros e crónicas me fazem sempre “sair do sítio”. Para mim, é uma escritora que marca um olhar, uma forma e uma moral absolutamente inovadoras na literatura portuguesa e que transporta consigo uma nova energia (cáustica, diria) e uma intensidade feminina que a aproxima de enormíssimas escritoras que sempre muito me interessaram por isso mesmo, por essa diferença: Virginia Woolf , Jane Austen ou Colette (apesar da aversão desta ao feminismo), por exemplo, mas também – e para falar na língua portuguesa -, Maria Gabriela Llansol, Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta.


Falei eu em cima de queda e vertigem, porque foi mesmo isso o que aconteceu: o argumento do Luís exigia um filme muito mais longo, desconformado ao orçamento de que dispúnhamos. Era absolutamente necessário reduzi-lo, sem que se perdesse essa atitude de “leitura” do romance e, sobretudo, que se preservasse essa tal ideia genial que descrevi em cima: o aparecimento da criatura à criadora e todas as peripécias que essa aparição promete, e que não são do romance, bem entendido (por causa de tal aparição, dei por mim a pensar em Welles – muitas vezes nele pensei, aliás – e no que aconteceria se D. Quixote aparecesse a Cervantes, por exemplo).  A teia estava, portanto, estabelecida, e nela iríamos então cair “alegremente”.


Foi uma queda que me conduziu a lugares que eu jamais suporia. Por exemplo, que me levaria a notar a absoluta similitude que existe entre a estrutura de Campo de Sangue com as suas cinco personagens femininas em torno de um ELE – que, na verdade, não se sabe nunca se não será uma construção de cada uma delas – e um dos mais extraordinários livros da história da literatura: Genji Monogatari (O Romance do Genji), livro escrito no século XI sobre Hiraku Genji, um príncipe do império Heian, tal como olhado pelas diferentes mulheres com quem se relacionou ao longo da vida. Há muito quem considere ser este o primeiro romance da história da literatura; em todo o caso, é uma obra fantástica, intensamente cinematográfica e, pasme-se!, também escrita por uma mulher: Murasaki Shikibu, pseudónimo de uma dama da corte imperial, cujo nome escolhido (Murasaki) é também nome de uma flor e de uma cor – violeta (elemento que, por isto mesmo, viria a ter alguma importância na construção visual da Dulce do filme... pensando sempre nesse encontro/sobreposição entre a escritora do livro Campo de Sangue e a escritora dessa obra mítica e maravilhosamente semelhante, escrita há quase exactamente mil anos).


Ancorada neste processo, esta vertigem essencial foi então ganhando, pouco a pouco, uma forma, à qual eu fui, desde sempre, especialmente sensível: a forma de um labirinto – labirinto do espaço, mas também do tempo -, forma realmente primordial por ser, na verdade, a primeira paisagem (uterina) de todos nós. Saímos – na verdade, somos expelidos, e com que violência! - do nosso labirinto original, para passarmos a ser figuras nos labirintos dos outros. Daí, tudo o que de essencial faz a aproximação deste filme ao programa de “A Condição Humana”, que quis começar a filmar com o anterior Duas Mulheres. Somos humanos, fatalmente e tragicamente humanos (e o ELE do filme/romance é disso mesmo um emblema). Não podemos escapar à crueldade que marca a nossa condição (que muitos chamam - ó quão erradamente! - de “singularidade”), justamente pela forma labiríntica como vivemos as nossas “vidas humanas”, condenadas, por isso mesmo, a serem vidas de perdição. Já é disso que nos fala, causticamente, Campo de Sangue (o livro), tomando por referência a exemplar narrativa bíblica da traição e morte de Judas, a qual suporta, simbolicamente, toda a razão de ser do romance. São tragédias de homens, das quais talvez – esperemos! - só as mulheres e os animais consigam historicamente sobreviver... mesmo que umas e outros tenham sido e continuem a ser, desgraçadamente (et pour cause),  as suas principais vítimas...


João Mário Grilo





Maio de 2022

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