Umberto D. Umberto D.
Era o filme preferido de De Sica, Bazin considerou-o um dos maiores da história do cinema, Chaplin chorou ao vê-lo. Buñuel escreveu que “era um dos melhores filmes que o neo-realismo produzira”. O novo governo democrata-cristão italiano manobrou para que não saísse vitorioso do festival de Cannes, e um jovem Giulio Andreotti escreveu um artigo inflamado contra o neo-realismo e acusava De Sica de dar “uma má imagem do país”, ao que o realizador retorquiu que “contava a realidade”. Umberto D. é um velho solitário e o apelido é amputado para tornar universal um problema com que se debatia na altura a Itália: o dos reformados que viviam na indigência com as pensões de miséria que recebiam. Contra a pretensão dos produtores, o realizador foi de novo buscar rostos novos e desconhecidos: um professor para interpretar Umberto D., e uma rapariga que encontrou na província e que acompanhara uma amiga ao casting para interpretar a criada da pensão onde aquele vive. Há paralelismos evidentes com Ladrões de Bicicletas neste retrato íntimo de um homem só, que tem apenas um cão por companhia e luta para sobreviver e manter a sua dignidade, onde Zavattini, que desta vez escreveu sozinho o argumento, atinge a máxima expressão da sua busca poética.
Festivais e prémios
Festival de Cannes 1952 – Selecção Oficial em Competição
Prémios Bodil 1955 – Melhor Filme Europeu
Prémios New York Film Critics Circle 1955 – Melhor Filme Estrangeiro
Óscares 1957 – Nomeação para Melhor Argumento (Cesare Zavattini)
Actores e ficha técnica
Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Casilio, Lina Gennari
Argumento: Cesare Zavattini
Direcção de Fotografia: G. R. Aldo
Montagem: Eraldo da Roma
Produção: Giuseppe Amato, Vittorio de Sica, Angelo Rizzoli
Distribuição: Leopardo Filmes
Biografia do realizador
Vittorio De Sica nasceu em Sora, perto de Roma, e morreu em 1974 em Neuilly-sur-Seine. O seu pai, Umberto, jornalista de profissão, ocasionalmente tocava piano no acompanhamento de filmes mudos, o que despertou no jovem Vittorio um interesse pelo cinema. Depois de se ter mudado para Nápoles, De Sica começou a participar como actor em espectáculos amadores. Nos anos 20, já em Roma, depois de estudar contabilidade, integrou várias companhias de teatro, o que lhe permitiu tornar-se um actor adorado, não só de comédias ligeiras, mas também de romances. Ao mesmo tempo, começou a participar em filmes, colaborando regularmente com o realizador Mario Camerini, um dos mais prestigiados da época, nas chamadas comédias de “telefone branco” (telefoni bianchi), próximas das comédias americanas e cujo maior símbolo são os telefones brancos característicos dos cenários Art Déco, associados à burguesia. Em 1940, realizou o seu primeiro filme, Rose scarlatte, uma comédia de “telefone branco”. Nos anos seguintes, De Sica realizou várias destas comédias. Em 1943, realizou o seu quinto filme, I bambini ci guardano, que marca a primeira de muitas colaborações com o argumentista Cesare Zavattini e é hoje considerado um precursor do neo-realismo, movimento do qual De Sica e Zavattini (no papel de argumentista e teórico) se tornariam nomes cimeiros. Os dois voltariam a colaborar novamente em 1946, no filme Sciuscià, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (embora tenha sido mal recebido pelo público italiano). A mestria de De Sica na direcção de não-actores e no uso de décors exteriores, assim como a sua profunda compaixão pelas personagens, confirmou-se no seu filme seguinte, novamente escrito por Zavattini – Ladrões de Bicicletas (1948), uma das obras-primas do cinema italiano e de toda a história do cinema, sobre um pai e um filho que vasculham a cidade de Roma à procura de uma bicicleta roubada, indispensável para o seu trabalho. Tal como Sciuscià, o filme também venceu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1951, a dupla colaborou novamente em O Milagre de Milão, vencedor do Grande Prémio no Festival de Cannes, que trouxe ao neo-realismo uma audaciosa mutação, misturando o realismo social com uma fantasia desenfreada. No ano seguinte, a sua colaboração deu origem a Umberto D., considerado, tal como os anteriores, um dos melhores filmes do neo-realismo e do cinema italiano. É o filme favorito de De Sica, que o dedicou ao pai. Nos anos seguintes, quase sempre com a colaboração de Zavattini, realizou obras como O Ouro de Nápoles (1954); Duas Mulheres (1960), pelo qual Sophia Loren venceu o Óscar de Melhor Actriz; Casamento à Italiana (1964), e O Jardim Onde Vivemos (1970), a sua última grande obra e vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A par da realização, De Sica continuou a sua carreira de actor, participando em filmes como Madame de… (1953), de Max Ophuls; Pão, Amor e Fantasia (1953), de Luigi Comencini, e O General Della Rovere (1959), de Roberto Rossellini, considerado um dos maiores papéis da sua carreira. De Sica é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes do cinema italiano, atrás da câmara e à sua frente. Sobre ele, André Bazin escreveu: “Para explicar De Sica, devemos voltar à fonte da sua arte, a saber, a sua ternura, o seu amor (...) a sua incansável afecção pelas suas personagens.”


