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7 filmes de Akira Kurosawa

Depois das operações Yasujiro Ozu e Kenji Mizogucchi, com cópias digitais restauradas e a estreia comercial de muitos dos seus filmes até à data inéditos em sala em Portugal, a Leopardo Filmes continua o seu trabalho de divulgação do grande cinema japonês e dedica agora uma operação especial a AKIRA KUROSAWA, o outro grande mestre do cinema nipónico, e aquele que mais contribuiu para o seu conhecimento e divulgação no Ocidente. São 7 filmes do período de maior glória do cineasta, em cópias digitais restauradas, 5 dos quais inéditos em sala e que se estreiam agora finalmente no nosso país.


Os Sete Samurais (1954, cópia digital restaurada)
Estreia 17 de Setembro


Yojimbo, o Invencível (1961, cópia digital restaurada)
Estreia 24 de Setembro


Viver - Ikiru (1952, inédito comercialmente em sala em Portugal)
Estreia 1 de Outubro


A Fortaleza Escondida (1958, cópia digital restaurada, inédito comercialmente em sala em Portugal)
Estreia 8 de Outubro


Dodeskaden (1970, inédito comercialmente em sala em Portugal)
Estreia 8 de Outubro


O Barba Ruiva (1965, inédito comercialmente em sala em Portugal)
Estreia 15 de Outubro


O Trono de Sangue (1957, cópia digital restaurada, inédito comercialmente em sala em Portugal)
Estreia 15 de Outubro


O cinema tem tantas semelhanças com as outras artes… Se tem muitas características da literatura, também as tem do teatro, ou mesmo um lado filosófico, atributos da pintura e da escultura, e elementos musicais. […] Mas há algo muito especial nos filmes que é puramente cinemático. Quando faço filmes ou vou ver os filmes de outros cineastas, estou à procura dessa experiência.

Akira Kurosawa


Celebramos este ano o centésimo décimo aniversário de Akira Kurosawa (1910-1998), que, com Mizoguchi e Ozu, é um dos grandes Mestres do cinema japonês. É a ele que nós devemos, é a ele que o cinema japonês deve, a descoberta no Ocidente de uma das mais fascinantes cinematografias da história do cinema.


Último de sete irmãos, foi com o pai, descendente de uma antiga família de samurais, que cedo começou a ir ao cinema e viu muitos filmes europeus e americanos. Mais tarde, com o seu irmão Heigo, benshi de profissão (narrador de filmes no período do mudo), com o qual, contra a vontade da família, foi viver para um bairro proletário e boémio, passou a ter acesso livre às salas de cinema. Esta “primeira escola”, que foi fundamental para a formação do jovem Akira, terminaria com o suicídio de Heigo, na sequência da chegada do sonoro, que arrastou todos os benshi para o desemprego. É então que AK resolve candidatar-se a um posto de assistente de realização num estúdio cinematográfico. Aí começará uma nova etapa na sua formação. Um dos examinadores era o célebre realizador Kajiro Yamamoto, que ficou impressionado com a cultura cinematográfica de Kurosawa. Ao longo dos sete anos de aprendizagem no estúdio, AK foi assistente em vários dos filmes de Yamamoto (que considerou “o maior mestre da sua vida”; por seu lado, este dizia que Kurosawa possuía um talento inato). No início dos anos 40, num período extremamente conturbado (a guerra, uma censura implacável), Kurosawa tenta tornar-se realizador e consegue, depois de vicissitudes várias, fazer o seu primeiro filme, nos estúdios Toho, em 1943.


1951 será um ano especial para Kurosawa e para o cinema japonês. Rashomon / Às Portas do Inferno, o seu 12º filme, conquista o Leão de Ouro em Veneza, a que juntaria depois o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Este triunfo chamaria a atenção do Ocidente para o cinema que se fazia (e o que antes deste se fizera) no Japão. E se Mizoguchi e Kinugasa, ou depois Ozu e Naruse, e a geração contemporânea de AK, começaram a ser vistos e a despertar a atenção no Ocidente, foi através desta porta aberta por Kurosawa.


Começa a partir daqui o período de maior glória do cineasta, o das suas obras mais célebres, que veremos neste ciclo de 7 filmes, quase todos eles em cópias digitais restauradas, 5 deles inéditos comercialmente em sala em Portugal. Como escreveu Manuel Cintra Ferreira, Viver (1952) e Dodeskaden (1970) balizam a fase de ouro da obra de Akira Kurosawa, e o corpo principal da sua obra “encontra-se entre estes dois filmes, por mais admiráveis que tenham sido alguns dos que fez depois”.


Viver - Ikiru (1952, inédito comercialmente em sala em Portugal), que no ano de estreia figurava à cabeça da lista dos melhores filmes para os críticos japoneses, e que para André Bazin, aquando de uma retrospectiva do cinema japonês em Paris, uns anos mais tarde, foi “o mais belo, o mais sábio e o mais comovente dos filmes japoneses que [lhe] fora dado ver”;


Os Sete Samurais (1954), outra das obras-primas de Kurosawa, sobre a qual o realizador afirmou: “Um filme de acção pode não ser mais do que um filme de acção. Mas como é maravilhoso se ele puder ao mesmo tempo pintar a humanidade! Esse foi sempre o meu sonho desde a época em que era assistente de realização. Depois destes anos todos, sonho reconsiderar o drama antigo a partir deste ponto de vista”;


O Trono de Sangue (1957, inédito comercialmente em sala em Portugal), um dos filmes maiores do realizador, uma das melhores adaptações do Macbeth de Shakespeare ao cinema (ainda Manuel Cintra Ferreira, “aquela em que melhor se sente o som e a fúria da tragédia do grande do isabelino”);


o genial A Fortaleza Escondida (1958, inédito comercialmente em sala em Portugal), súmula da arte de AK, que aqui utiliza pela primeira vez o cinemascope e que se tornou um tal êxito que lhe veio permitir fundar a sua própria produtora;


Yojimbo, o Invencível (1961), o seu filme mais popular, um dos maiores êxitos do cinema japonês de sempre. Kurosawa dizia que na base desse sucesso estava o carácter do herói, Sanjuro (extraordinária interpretação do grande actor Toshiro Mifune, que fez 17 filmes com o realizador), um verdadeiro herói, que, quando luta, tem uma razão para o fazer;


por outro lado, O Barba Ruiva (1965, inédito comercialmente em sala em Portugal), marca o fim de uma época: a crítica rende-se por inteiro ao cineasta, e este filme é um dos objectos mais fascinantes que realizou, mas fala-se também agora da “megalomania” dos seus projectos, do seu exagerado perfeccionismo, da sua “desmesura”, do tempo demasiado que levou a fazê-lo. E, apesar de um razoável sucesso de bilheteira, o filme não conseguiu pagar-se.


Começa aqui um período mais difícil para o cineasta, um período de incompreensão, que leva a que o seu filme seguinte, Dodeskaden (1970, inédito comercialmente em sala em Portugal), o último que veremos neste ciclo essencial, só se concretize 5 anos depois. Como resposta a um período depressivo, Kurosawa rodou este filme admirável em 4 semanas, com baixo orçamento (“fiz o filme para provar que não tinha enlouquecido”). Dodeskaden, contruído sobre narrativas irónicas, entrelinhas, ilusões, como sublinhou o escritor Pedro Eiras, inspira-se em Gorki e num romance do japonês Yamamoto, e é nele que Kurosava utiliza pela primeira vez a cor, com o olhar do pintor Rokuchan (recorde-se que, na sua infância, fora um professor de desenho que despertara o interesse do jovem Akira pela escola; de resto, o desenho e a pintura foram actividades que sempre continuou a praticar). O realizador afirmou: “Rokuchan simboliza o artista, o cineasta, que cria única e exclusivamente por meio da sua imaginação, neste caso o caminho de ferro imaginário, isto é, o cinema”. É um filme de resistência, um filme de sobrevivência, das personagens que o habitam e de um realizador, de um homem com uma sabedoria desconcertante, simultaneamente tão humana e sobre-humana. Pouco tempo depois da sua estreia, Kurosawa teve uma tentativa de suicídio, felizmente malograda.


O que se seguiu, sabemo-lo, espectadores portugueses, já que os filmes que realizou a partir desta data foram distribuídos em Portugal. Vários deles pela Atalanta Filmes e pela Leopardo Filmes, sua sucessora, em estreia ou reposição em cópias restauradas, e que terão projecções especiais no âmbito deste ciclo: Derzu Uzala, A Águia das Estepes (1975, que realizou a convite dos soviéticos, e é um “regresso” à sua juventude, uma obra que parte dos romances de viagens de Vladimir Arseniev que lera em adolescente – o filme conquistou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e fez renascer Kurosawa); e os derradeiros, mais intimistas e num registo mais pessoal, Rapsódia em Agosto (1991) e Madadayo/Ainda Não! (1993).


Akira Kurosawa, que percorreu quase um século de cinema, morreu em 1998, em Tóquio, a cidade onde nascera. Aclamado pela crítica e amado pelos seus pares (Samuel Fuller, Scorsese, Coppola, Spielberg, Lucas…), não só abriu as portas do Ocidente ao cinema japonês, como foi o mais internacional dos seus cineastas, tendo vários dos seus filmes sido objecto de remakes: John Sturges realizou The Magnificent Seven (1960), remake de Os Sete Samurais, Rashomon foi transposto como western por Martin Ritt (The Outrage, 1964), Yojimbo por Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares, 1964)… Em 1985, Chris Marker dedicou-lhe o filme A.K..


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