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João César Monteiro no MoMA: um acontecimento maior para o cinema português

De 16 de Outubro a 6 de Novembro de 2025, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque apresenta João César Monteiro: Symphonies of a Libertine, uma retrospectiva integral, em novos restauros, dedicada a um dos autores mais singulares e radicais do cinema português. 


Frequentemente associado a Manoel de Oliveira, Monteiro seguiu um caminho libertino, iconoclasta e profundamente anticlerical, inspirado por Marquês de Sade, pelos simbolistas e surrealistas. Fez do cinema um gesto de provocação e de fé, misturando erotismo, sátira política e poesia com a precisão de um cirurgião e a desobediência de um santo herege.


A retrospectiva cobre toda a sua filmografia — desde VAI E VEM (2003), obra terminal projectada em Cannes, até SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1969), a sua primeira curta documental — passando por marcos internacionais como BRANCA DE NEVE (2000), seleccionada para Veneza; AS BODAS DE DEUS (1999), apresentada na secção Un Certain Regard de Cannes; A COMÉDIA DE DEUS (1995) e RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989), ambas distinguidas com o Leão de Prata no Festival de Veneza; SILVESTRE (1981), em competição oficial no mesmo festival; ou ainda VEREDAS (1978), À FLOR DO MAR (1986), O ÚLTIMO MERGULHO (1992) e LE BASSIN DE J.W. (1997). A programação revela também títulos de juventude e experimentação como QUE FAREI EU COM ESTA ESPADA? (1975), FRAGMENTOS DE UM FILME ESMOLA — A SAGRADA FAMÍLIA (1972) e QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO (1970), compondo um retrato total de um artista que nunca abdicou da liberdade nem da vertigem.


Organizada por Francisco Valente, esta retrospectiva antecede a publicação de um novo livro com traduções de textos e entrevistas de Monteiro, abrindo a sua obra ao público internacional de forma inédita.


No âmbito da programação, o MoMA publica «An Iconoclast and an Icon: Paulo Branco on João César Monteiro and Snow White», uma longa conversa entre Francisco Valente e Paulo Branco, produtor e cúmplice fundamental na construção desta filmografia lendária. Sobre Monteiro, Branco sublinha: «A minha luta foi dar-lhe reconhecimento. Testemunhar toda a sua trajectória artística foi um privilégio único. César deixou uma marca na minha vida. Assistir aos seus filmes foi também assistir à sua loucura luminosa.»


Esta retrospectiva integra-se no Catálogo dos Clássicos Portugueses da Leopardo Filmes, um catálogo alargado que, a par da obra completa de João César Monteiro, inclui ainda os filmes de Manoel de Oliveira (a década de consagração 1994–2005), Fernando Lopes e mais de cinquenta títulos de autores como Pedro Costa, Teresa Villaverde, João Botelho, João Canijo, José Álvaro Morais e Mário Barroso.


A presença total da obra de Monteiro no MoMA é um marco histórico: um português libertino e visionário a ocupar, com o seu riso sacrílego e a sua fé na arte, o centro da mais prestigiada instituição museológica de cinema contemporâneo.


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