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O Milagre de Milão Miracolo a Milano

Um filme de Vittorio De Sica com Emma Gramatica, Francesco Golisano, Paolo Stoppa

Depois do sucesso de Ladrões de Bicicletas, um filme da dupla De Sica-Zavattini seria sempre um acontecimento. E De Sica voltava a surpreender, neste filme que adapta um romance do próprio Zavattini. Como notou Bazin, O Milagre de Milão traz ao neo-realismo uma audaciosa mutação, misturando o realismo social com a fantasia mais desenfreada. Totò é um jovem ingénuo e com bons sentimentos, saído de um orfanato. Um vagabundo acolhe-o em noite de intempérie e ele decide organizar uma “cidade da felicidade” para os indigentes num terreno baldio. Mas, ao descobrirem que naquele lugar há petróleo, os capitalistas resolvem expulsá-los. E é aí que entra o elemento “mágico”, na forma de uma pomba que lhe é entregue pela avó, que desce do céu, e que Totò usa para rechaçar os invasores. De Sica reconhece a influência de Chaplin e de René Clair, mas fá-la ressurgir de uma forma extremamente criativa, poética (Bazin dizia que não havia no mundo nenhum realizador que tivesse, como ele, o sentido da poesia de um rosto), cómica, e humana. O cineasta italiano construía assim mais um futuro clássico da história do cinema.


Folha de Sala

1950 | Itália | M/6 | 97 min | Comédia, Drama | Longa-metragem | Cópia Restaurada 4K

Festivais e prémios

Festival de Cannes – Grande Prémio do Festival

Prémios New York Film Critics Circle – Melhor Filme Estrangeiro (Itália)

Actores e ficha técnica

Emma Gramatica

Francesco Golisano
Paolo Stoppa
Guglielmo Barnabò
Brunella Bovo
Anna Carena


Realização: Vittorio De Sica
Argumento: Vittorio De Sica, Suso Cecchi D’Amico, Mario Chiari, Adolfo Franci, com base no romance homónimo de Cesare Zavattini
Produção: Vittorio De Sica
Música: Alessandro Cicognini
Fotografia: G.R. Aldo
Montagem: Eraldo Da Roma
Direcção de Arte e decors: Guido Fiorini
Guarda-roupa: Mario Chiari
Som: Bruno Brunacci
Distribuição: Leopardo Filmes

Biografia do realizador

Vittorio De Sica nasceu em Sora, perto de Roma, e morreu em 1974 em Neuilly-sur-Seine. O seu pai, Umberto, jornalista de profissão, ocasionalmente tocava piano no acompanhamento de filmes mudos, o que despertou no jovem Vittorio um interesse pelo cinema. Depois de se ter mudado para Nápoles, De Sica começou a participar como actor em espectáculos amadores. Nos anos 20, já em Roma, depois de estudar contabilidade, integrou várias companhias de teatro, o que lhe permitiu tornar-se um actor adorado, não só de comédias ligeiras, mas também de romances. Ao mesmo tempo, começou a participar em filmes, colaborando regularmente com o realizador Mario Camerini, um dos mais prestigiados da época, nas chamadas comédias de “telefone branco” (telefoni bianchi), próximas das comédias americanas e cujo maior símbolo são os telefones brancos característicos dos cenários Art Déco, associados à burguesia. Em 1940, realizou o seu primeiro filme, Rose scarlatte, uma comédia de “telefone branco”. Nos anos seguintes, De Sica realizou várias destas comédias. Em 1943, realizou o seu quinto filme, I bambini ci guardano, que marca a primeira de muitas colaborações com o argumentista Cesare Zavattini e é hoje considerado um precursor do neo-realismo, movimento do qual De Sica e Zavattini (no papel de argumentista e teórico) se tornariam nomes cimeiros. Os dois voltariam a colaborar novamente em 1946, no filme Sciuscià, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (embora tenha sido mal recebido pelo público italiano). A mestria de De Sica na direcção de não-actores e no uso de décors exteriores, assim como a sua profunda compaixão pelas personagens, confirmou-se no seu filme seguinte, novamente escrito por Zavattini – Ladrões de Bicicletas (1948), uma das obras-primas do cinema italiano e de toda a história do cinema, sobre um pai e um filho que vasculham a cidade de Roma à procura de uma bicicleta roubada, indispensável para o seu trabalho. Tal como Sciuscià, o filme também venceu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1951, a dupla colaborou novamente em O Milagre de Milão, vencedor do Grande Prémio no Festival de Cannes, que trouxe ao neo-realismo uma audaciosa mutação, misturando o realismo social com uma fantasia desenfreada. No ano seguinte, a sua colaboração deu origem a Umberto D., considerado, tal como os anteriores, um dos melhores filmes do neo-realismo e do cinema italiano. É o filme favorito de De Sica, que o dedicou ao pai. Nos anos seguintes, quase sempre com a colaboração de Zavattini, realizou obras como O Ouro de Nápoles (1954); Duas Mulheres (1960), pelo qual Sophia Loren venceu o Óscar de Melhor Actriz; Casamento à Italiana (1964), e O Jardim Onde Vivemos (1970), a sua última grande obra e vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A par da realização, De Sica continuou a sua carreira de actor, participando em filmes como Madame de… (1953), de Max Ophuls; Pão, Amor e Fantasia (1953), de Luigi Comencini, e O General Della Rovere (1959), de Roberto Rossellini, considerado um dos maiores papéis da sua carreira. De Sica é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes do cinema italiano, atrás da câmara e à sua frente. Sobre ele, André Bazin escreveu: “Para explicar De Sica, devemos voltar à fonte da sua arte, a saber, a sua ternura, o seu amor (...) a sua incansável afecção pelas suas personagens.”

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